Visita a Ibitipoca resulta no mapeamento de 7 cavernas
Por Augusto Auler
As cavernas quartzíticas do Parque Estadual de Ibitipoca, há muito conhecidas, foram mapeadas originalmente pela SPEC (Sociedade Carioca de Pesquisas Espeleológicas) nos anos 90. Procurando subsídios para seu trabalho de campo, o aluno de mestrado do IGC/UFMG Sérgio Melo Silva teve grande dificuldade em encontrar os mapas, localizando somente o mapa da Gruta das Bromélias, caverna mais extensa do parque. Foi então decidida a organização de uma expedição com a finalidade de retopografar as grutas mais conhecidas.
Entre os dias 30 de janeiro e 1 de fevereiro últimos, reuniram-se na vila de Conceição de Ibitipoca 22 espeleólogos do Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas e do Grupo Pierre Martin de Espeleologia. Foram formadas quatro equipes de topografia e uma de prospecção que, em dois dias de intenso trabalho, mapearam cerca de 2 km de galerias.
Foram retopografadas as seguintes cavernas: Gruta dos Moreira, Casas, Fugitivos, Coelhos, Pião, Três Arcos e Cruz. Destaque para a descoberta de novas galerias na Gruta dos Coelhos, ainda não mapeadas, que podem vir a elevar consideravelmente o seu desenvolvimento. A equipe de prospecção foi guiada por Anselmo, guia local, e visitou diversas cavernas não cadastradas, algumas de grandes dimensões. Os mapas das cavernas estão sendo produzidos e digitalizados. Um retorno é planejado ainda neste semestre. A visita contou com o apoio da administração do Parque Estadual de Ibitipoca e do Instituto Estadual de Florestas (IEF/MG).
CARSTE 2004 - I Encontro brasileiro de Estudos do Carste
Belo Horizonte, 27 a 31 de julho de 2004. Mais detalhes em breve |
França: doações em vez de flores
O cemitério do vilarejo de Chanac foi pequeno para receber todos os amigos e parentes que acompanharam o enterro do jovem Bastien Pédel, falecido em acidente no abismo Aven de la Cheminée, no fim de dezembro do ano passado (ver notícia no Conexão Subterrânea nº 2). Em vez de flores, os pais do jovem pediram que fossem feitas doações em dinheiro, para serem encaminhadas aos espeleólogos que tentaram salvar a vida do filho. As doações totalizaram quase 3 mil Euros (cerca de R$ 11 mil) que foram doados ao Comitê Departamental de Espeleologia. O dinheiro deverá ser aplicado em ações que permitam a melhoria das condições de resgate em cavernas da região.
Fonte: Midi Libre 16/01/04.
Mammoth Cave ameaçada
Uma intensa batalha entre ambientalistas e empreendedores está sendo travada há 5 anos no estado de Kentucky (EUA). O Kentucky Trimodal Transpark (KTT) é um mega projeto de 100 milhões de dólares que envolve uma área industrial, um aeroporto e um complexo ferroviário. O KTT está localizado sobre uma área cárstica contendo centenas de dolinas e rios subterrâneos, situada a apenas 14 km do Parque Nacional de Mammoth Cave, que contém a maior caverna do mundo, atualmente com cerca de 580 km de desenvolvimento.
Ambientalistas relatam que não foram realizados estudos ambientais conclusivos e que há risco de colapso de dolinas e de poluição do aqüífero. Estudos com traçadores demonstraram que durante período de seca (lençol freático baixo) a água subterrânea sob o empreendimento movese na direção contrária de Mammoth Cave. No entanto, existe a possibilidade, não descartada, de que durante os períodos de chuva (lençol freático alto), a direção de fluxo possa se reverter, levando eventuais contaminantes até o parque nacional, afetando o frágil ecossistema subterrâneo de Mammoth Cave. Ao mesmo tempo que cientistas e ambientalistas lutam contra a concretização do projeto, argumentando que o mesmo irá trazer mais danos do que benefícios, empresas que planejam se instalar no local já confirmaram investimentos de centenas de milhões de dólares.
Fonte: Geological Society of America Annual Meeting 2002; Associated Press 04/02/2004 e Cavers Digest 5802.
Falta de oxigênio foi responsável pela morte de mergulhadores suíços
Foi divulgada a análise do ar contido em um bolsão logo após o primeiro sifão da Ressurgência de Meyraguet, localizada no Departamento de Lot na França. Em 19 de novembro de 2003 dois mergulhadores suíços foram encontrados mortos neste bolsão de ar. A equipe do espeleoresgate francês (SSF) retornou ao local e efetuou duas amostragens do ar. O resultado das análises esclarece as causas do acidente: N2 = 87%; O2 = 9%; CO2 = 1%; outros gases = 2%.
Concluiu-se que os baixos teores de oxigênio foram responsáveis pela morte dos mergulhadores.
Fonte: Spéleo Secours Français (SSF), 23/01/2004.
Grutas chinesas são maiores do que as brasileiras
Chegou ao fim a 4ª expedição conjunta entre chineses e italianos ao distrito de Fengshan, região de Guangxi, China. A expedição foi realizada entre 23 de dezembro de 2003 e 3 de janeiro de 2004 e foi coordenada pelo Centro de Pesquisas Hidrológicas da Sicília e a seção de espeleologia da Sociedade Chinesa de Geologia.
Durante a conferência à imprensa realizada pelos líderes da expedição, foi destacado o fato de que quatro entre as dez maiores cavernas da China se localizam nesta região. Rosario Ruggieri, líder do grupo italiano, fez a curiosa declaração de que os salões das grutas de Fengshan são maiores do que os das cavernas brasileiras, o que demonstra o quanto as dimensões internas de nossas cavernas são reconhecidas internacionalmente. De fato, os dois maiores salões encontrados possuem área de 37.000 e 31.000 m2, o que supera largamente o maior salão brasileiro, na Lapa dos Brejões (cerca de 20.000 m2).
Outro destaque da expedição, segundo o coordenador chinês Zhang Yuanhai, foram os espeleotemas. Foi descoberta uma estalagmite com 36,2 m de altura, a segunda maior do mundo, só perdendo para uma estalagmite na Eslovênia que mede 38,2 m de altura. Foi também encontrada uma pérola de caverna com 22 cm de diâmetro, considerada pelo grupo como sendo a maior jamais encontrada no mundo. No entanto, no Brasil existe registro de uma pérola de caverna com 23 cm de diâmetro provinda da Lapa d'Água em Montes Claros (MG) e outra com 20 cm de diâmetro da Lapa São Mateus/Imbira em São Domingos (GO).
Fonte: People Daily 17/01/2004.
Cavernas da Grã Bretanha são fechadas devido à falta de seguro
O acesso às cavernas britânicas tem sido consideravelmente restringido durante os últimos meses. Na Grã- Bretanha, o proprietário da terra também é dono da caverna e cabe a ele decidir quem pode ou não entrar na gruta. Em caso de acidentes em sua propriedade, o proprietário pode ser indiciado e condenado. Por este motivo, muitos proprietários só permitem o acesso a espeleólogos que possuam seguro específico que cubra acidentes em caverna, já que muitos seguros não são válidos para atividades de risco como a exploração de cavernas.
As entidades que representam os espeleólogos britânicos (BCRA e NCA) possuíam um seguro específico que era disponibilizado para todos os sócios. No entanto este seguro expirou e estas entidades tem encontrado considerável dificuldade em renová-lo. Até que o seguro seja renovado, muitas cavernas permanecerão fechadas às atividades espeleológicas.
Fonte: Cavers Digest 5800 - 5803.
Revista espeleológica O Carste lança novo número
Acaba de ser lançada a última edição da revista O CARSTE (volume 16, nº 1, janeiro de 2004). A maior parte deste número versa sobre as explorações conjuntas efetuadas pelos Grupos Bambui e Pierre Martin (GPME) na região de São Desidério, oeste da Bahia, em Julho de 2003. Artigos sobre bioespeleologia em Iraquara e arqueologia no vale do Peruaçu complementam a edição.
O CARSTE é uma publicação do Grupo Bambuí de Pesquisas Espeleológicas. Mais informações sobre a revista O CARSTE e como recebê-la podem ser obtidas em: carste@net.em.com.br
Caça a porco espinho acaba em morte em caverna na Índia
Um insólito acontecimento foi reportado recentemente pela imprensa indiana. Três jovens estavam tentando afugentar um porco espinho que havia se refugiado dentro de uma caverna em Badiadukka no distrito de Kasargode na Índia. Os jovens atearam fogo a folhas secas, na esperança de que a fumaça forçasse o animal a sair. No entanto, estando também no interior da gruta, os incautos foram asfixiados pela fumaça e faleceram.
Fonte: Sify.com/news 03/02/2004.
Resenha
Merveilles du Monde Souterrain
Por Augusto Auler e Leda Zogbi
Este livro, traduzido do italiano para o francês, é uma obra de grande formato e capa dura, com destaque para fotografias de grutas do mundo inteiro. A obra se inicia com uma breve introdução sobre a formação de cavernas, seguida de capítulos sobre as grutas julgadas mais importantes em todos os continentes do planeta. Cada caverna é descrita brevemente, seguindo-se informações gerais como localização, dimensões, meio de acesso, descrição e contexto natural. Entremeados às descrições de cavernas encontram-se textos curtos sobre temas diversos como espeleologia em geleiras, espeleotemas, história, bioespeleologia, entre outros.
O Brasil é representado pela Toca da Boa Vista e a Caverna de S a n t a n a (páginas 34 a 37). O texto sobre Santana possui alguns enganos, como a menção a uma suposta conexão hidrológica entre Gruta das Pérolas e Caverna da Água Suja e o desnível da caverna (0 m!). A descrição da Toca da Boa Vista é mais correta, realçando a importância científica da caverna. Duas fotografias de cada caverna acompanham o texto. Infelizmente as fotografias escolhidas não estão entre as melhores que se poderia obter destas cavernas, que contam com um acervo fotográfico bastante abrangente. Outra menção ao Brasil provém de uma fotografia de página dupla, abrindo a seção sobre o continente americano, de um mergulhador na Gruta do Mimoso em Bonito (MS).
A obra segue a linha de alta qualidade das publicações da equipe La Venta. O preço, em Euros, é proibitivo, mas trata-se sem dúvida de uma obra de valor, que cumpre seu papel de fornecer um painel fotográfico de alguma das mais importantes cavernas do mundo.
| Merveilles du Monde Souterrain. Francesco Dal Cin; Antonio De Vivo (La Venta Exploring Team). 2003. Flammarion, Paris, 192 p. 42,75 Euros (www.amazon.fr) |
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Resgate em caverna francesa resulta em atrito entre espeleólogos e bombeiros
Um espeleólogo de 44 anos sofreu um acidente e fraturou a perna a 180 metros de profundidade na caverna Pueche Nègre, em Aveyron, França. Os bombeiros acorreram ao local, assim como a equipe do espeleo-resgate francês (Spéleo Secours Français – SSF). No entanto, a prefeitura local, que exerce controle sobre os resgates na área sob sua jurisdição, recusou a ajuda dos espeleólogos, deixando aos bombeiros o completo controle sobre a operação de resgate.
À equipe especializada do SSF, que conhecia a caverna e as técnicas necessárias para o resgate, só foi permitida a participação de um pequeno grupo para a desobstrução de três passagens que deviam ser alargadas. Assim que a equipe de desobstrução terminou seu trabalho, os espeleólogos foram expulsos da cena de resgate. Segundo os espeleólogos, algumas técnicas e equipamentos utilizados pelos bombeiros eram impróprios e não havia qualquer informação sobre a vítima. Em vista destes problemas a direção do SSF emitiu um comunicado à imprensa relatando o ocorrido. O espeleólogo acidentado foi removido da caverna no dia 26/01/04 e encaminhado ao hospital.
Fonte: SSF 24/01/04 e Spelunca Mundi 26/01/04.
Opinião
CECAV: parte da solução ou fonte de problemas?
Prof. Dr. Eleonora Trajano
Depto. de Zoologia, Inst. Biociências da USP
Todos aqueles que realizam pesquisas científicas envolvendo materiais provenientes do meio subterrâneo e que requerem licença especial do CECAV/IBAMA (ou similares, como o IPHAN) para sua coleta certamente já passaram pelo calvário que é a solicitação e obtenção de tais licenças. Atrasos muito além do razoável ou aceitável na emissão de respostas, levando a prejuízos reais para a ciência brasileira, erros grosseiros no próprio preenchimento das licenças, equívocos nas avaliações, e mesmo recusa não justificada em conceder as licenças para certas áreas ou táxons, são práticas constantes do CECAV. Mensagens solicitando esclarecimentos permanecem sem resposta, em uma atitude de puro descaso em relação a pesquisadores idôneos e respeitados no país.
A situação, no entanto, é muito mais grave e as arbitrariedades acima referidas constituem apenas a ponta do "iceberg". Recentemente, recebemos informações, de fontes diversas e fidedignas, de que estariam técnicos do CECAV realizando coletas de material biológico em cavernas sem apresentar a devida licença e, aparentemente, sem projetos científicos que as justificassem. Por exemplo, segundo relatório elaborado pelo Biol. Edmundo da Costa Jr., responsável técnico pelo Plano de Manejo do Abismo Anhumas (MS), este teria sido testemunha de uma dessas atividades de coleta durante uma pretensa vistoria do CECAV, quando não teve atendido seu pedido de apresentação de licença, como era seu direito solicitar. Sabemos que o que motiva tais coletas é o interesse em montar uma coleção científica para uso do CECAV "em suas pesquisas científicas" (propósito explicitado em mensagem de técnica do CECAV a pesquisadores do Butantã).
Ora, a realização de pesquisas científicas para geração de conhecimentos não consta das competências do CECAV, conforme a Portaria MMA/IBAMA no 57, de 05/06/1997, de sua criação. O que mais se aproxima disso são o Art. 3o ("...CECAV, tem por finalidade fomentar levantamentos, estudos e pesquisas...") e o inciso VI, do Art. 4o ("incentivar estudos científicos que promovam a ampliação do conhecimento sobre o patrimônio espeleológico..."). Fomentar e incentivar não são sinônimos de executar. Na realidade, os procedimentos do CECAV em relação aos pesquisadores científicos têm contrariado esta competência, dificultando e atrasando a ciência espeleológica brasileira.
A realização de pesquisas pelo CECAV, órgão responsável pela emissão de licenças, configura claramente conflito de interesses. É altamente inquietante o fato de um órgão que lida com informações privilegiadas e confidenciais, na medida que tem acesso a projetos ainda não aprovados e a relatórios contendo informações não publicadas, ter a possibilidade de utilizar tais informações para uso em estudos próprios. E mais: é lícito que os responsáveis pela análise dos pedidos e emissão de licenças emitam licenças para uso próprio? Quem os fiscalizará?
A realização de pesquisas pelo CECAV, legítima ou não, lícita ou não, já é um fato, como comprovam trabalhos apresentados em reuniões científicas (vide Resumos do XXV Congresso Brasileiro de Zoologia, em Brasília) e a contratação, pelo Projeto PNUD (ver "site" do IBAMA), de consultores para "execução de estudos". Curiosamente, em áreas para as quais eu mesma solicitei licença de coleta, que não foi concedida para fauna terrestre, sem qualquer justificativa, mesmo após reiteradas mensagens pedindo explicações. Mera coincidência? Já não creio mais.
O CECAV utiliza sistematicamente como desculpa para sua extrema morosidade na resposta à pedidos de licença para coletas, licenciamento ambiental etc., atribuições legais e exclusivas do Centro, a falta de pessoal. No entanto, seus técnicos tem disponibilidade para efetuar pesquisas. Este é um exemplo de desvio de recursos humanos, que deveriam estar dedicando-se ao bom funcionamento do CECAV dentro de suas competências, que não incluem a execução de estudos. Questiona-se, ainda, o próprio uso de verbas públicas, o qual deve ser transparente e destinado àqueles que produzirão os melhores resultados, princípio das licitações que rege tal uso. Uma simples consulta ao CV Lattes de alguns dos técnicos e consultores recém-contratados deixa larga margem de dúvidas a este respeito. Como órgão público, o IBAMA tem a obrigação de utilizar as verbas de que dispõe com transparência, parcimônia e competência.
Como a quem critica cabe sugerir a solução para os problemas e irregularidades apontados, proponho que se estude, a exemplo do que ocorre com a centro RAN do IBAMA (similar ao CECAV, que trata de répteis e anfíbios), a constituição de Comitê Científico formado por pesquisadores de destaque nacional, idôneos, completamente desvinculados do IBAMA e de notório saber na área de estudo do carste e dos ecossistemas subterrâneos, que possam observar suas ações e propor diretrizes, dando suporte técnico ao CECAV. Tal Comitê constituiria ainda uma instância para recursos, que não existe atualmente (ao menos não de forma clara), deixando-nos à mercê de decisões arbitrárias e não-fundamentadas.
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Expediente
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